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Um sinônimo de epifania: ouvir o violino do israelense radicado nos Estados Unidos Itzhak Perlman ao executar os 24 Caprichos de Paganini. Há o virtuosismo do intérprete, mas há também a elegância sonora do Stradivarius de 1714, que antes pertencia a Yehudi Menuhin (1916-1999).
A genialidade dos músicos é intraduzível, mas começam agora a brotar segredos dos instrumentos – foram 800 – montados pelo luthier italiano Antonio Stradivari (1644-1737), entre os séculos XVII e XVIII. Durante muitas décadas, surgiram especulações em torno da origem da madeira usada para a manufatura, em guerra patriótica. Suíça, França e Eslovênia reivindicaram ao longo do tempo a propriedade das florestas de onde teriam vindo as árvores que resultariam na preciosidade.
Um estudo que acaba de ser publicado na revista Dendrochronologia traz, enfim, uma resposta assertiva: a espécie de flora do Stradivarius é a Picea abies, conífera de regiões alpinas, especialmente na altitude de Trentino, no norte da Itália muito próximo, aliás, de onde foram realizados os Jogos Olímpicos de Inverno Milão-Cortina. “Por volta do início do século XVIII, Stradivari parece ter passado a privilegiar madeira das Dolomitas”, escrevem os autores.
Antes disso, os instrumentos eram feitos com madeira de pontos mais variados. A partir de cerca de 1700 é que despontou o período conhecido como a “era de ouro” de Stradivari, quando surgiram muitos de seus instrumentos mais célebres. A escolha dessas árvores não era casual. O crescimento em áreas montanhosas faz com que a madeira se desenvolva lentamente, produzindo anéis estreitos e regulares. Essa característica afeta diretamente a densidade e a rigidez do material, propriedades fundamentais para determinar como o instrumento vibra e projeta os sons.
O estudo também revelou um detalhe curioso sobre o método de trabalho do artesão. Stradivari frequentemente utilizava madeira retirada do mesmo tronco para fabricar várias peças. Isso sugere que, ao encontrar um material com propriedades acústicas ideais, ele explorava aquela fonte repetidamente. O trabalho de investigação agora anunciado foi cuidadoso e fascinante. Cada árvore cria um novo anel a cada ano, e a largura desses anéis varia conforme as condições ambientais, já que anos mais frios, secos ou chuvosos deixam marcas diferentes. Ao comparar esses padrões com registros de árvores de diversas regiões, os cientistas conseguem localizar a exata matriz geográfica.